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ao ver todas estas cores e tempos, nesta tarde de final de maio de 2012, convivendo em diversidade harmoniosa na mesma estação, outono, lembrei de uma frase que sempre escolho para resumir tudo: seja quem você é ! e assuma!!! tem que rir. naive? pode ser....também...mais além. quanto mais observo a inteligência da natureza mais questiono a dos chamados seres humanos, os únicos, que, dizem...se reconhecem quando se olham no espelho. tem que rir. aqui, as cores se expressam (porque é natural ser assim) e, somadas, criam um belíssimo cenário em harmonia. lembro, mais uma vez, o meu pop ex-vizinho (ele resolveu partir deste planeta) que certa vez me disse: "sabe, eu aprecio fulano de tal porque ele é declaradamente do mal. ele cortou na raíz aquela acácia antiga e imensa e linda porque as suas flores sujavam o terreno e dava muito trabalho varrê-las. é bom uma pessoa assim porque você sabe, pelo menos, com quem está lidando."

camélia no musgo - muito wabi

estou lendo o  "a elegância do ouriço"  de muriel barbery, lamentando que já estou quase chegando ao final do livro.
neste domingo, sentada no galpão, o resto de brasas incandescentes no forno à lenha, os gatos aninhados na almofada macia da cadeira, meu marido escrevendo e ouvindo miles davis,as estrelas reaparecendo depois de dias de chuva, cheguei a um capítulo chamado wabi. meu coração piscou mais uma vez.
wabi em japonês = uma qualidade de requinte mascarada de rusticidade.
sinto-me  a própria camélia no musgo. (nem sempre...) explico aqui.
a concierge, personagem do livro, assiste uma noite a um video, o filme as irmãs munakata, do diretor ozu.
ela comenta sobre duas cenas curtas e marcantes num roteiro sobre o novo e o antigo japão, conflitos, violência,decepção amorosa, "que nada na intriga motiva" e que no entanto "provocam um  emoção tão forte, mantêm todo o filme entre parênteses inefáveis."
cena 1: o pai, que em breve morrerá, conversa com a filha sobre o passeio que acabam de fazer por kyoto. bebem saquê.
o pai : e esse templo do musgo! a luz ainda realçava o musgo.
setsuko, a filha : e também a camélia posta ali em cima.
o pai : você reparou nela? como estava bonito! (pausa)
no antigo japão há coisas lindas. (pausa) esse modo de decretar que tudo é ruim me parece exagerado.
o filme avança e , bem no finzinho, setsuko, a mais velha, conversa com a irmã mais nova , muriko, num parque.
 cena 2 : setsuko, com o rosto radioso: diga-me mariko, por que os montes de kyoto são violeta?
mariko, esperta: é verdade, parece um flã de azuqui.
setsuko, sorridente: é uma cor muito bonita.


e aqui está a chave do filme, diz a concierge no livro, algo que escapa aos ocidentais.


setsuko: a verdadeira novidade é aquilo que não envelhece, apesar do tempo.


a camélia sobre o musgo do templo, o violeta dos montes de kyoto, uma xícara de porcelana azul, essa eclosão da beleza pura no centro das paixões efêmeras, não é a isso o que todos nós aspiramos? e não é isso que nós, civilizações ocidentais, não sabemos captar?
a contemplação da eternidade do próprio movimento da vida.